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6 de agosto: Dia do Rap Nacional

Instituído em 2008, o Dia do Rap Nacional celebra a resistência e a evolução do gênero que transformou a cultura brasileira.

Por Redação
6 de agosto: Dia do Rap Nacional

Seis de agosto. Uma data que quem vive a cultura carrega com outra consciência. O Dia do Rap Nacional não nasceu de decreto federal nem de campanha de marketing de gravadora: foi a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo que, em 2008, assinou a Lei 13.201 e tornou oficial o que a periferia já sabia há décadas. O rap não é entretenimento de nicho. É um pilar.

Mas para entender o peso dessa data, é preciso voltar no tempo, às ruas de São Paulo no começo dos anos 1980, quando o Hip Hop ainda engatinhava no Brasil e poucos apostavam que ele passaria da Galeria 24 de Maio e da estação São Bento. A estação São Bento do Metrô paulistano foi, durante anos, o epicentro do Hip Hop brasileiro. B-boys, MCs e DJs que se reuniam ali não tinham estúdio, não tinham gravadora, não tinham nada além do espaço do piso e do beat que o sistema de som improvisado conseguia reproduzir. Era resistência pura, no sentido mais literal da palavra.

O primeiro registro fonográfico exclusivo de rap feito no Brasil saiu em 1988, pela gravadora Eldorado. A coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua” colocou em vinil o que já movimentava as ruas e apresentou ao mercado fonográfico nomes que pavimentariam o que viria a ser chamado de Era de Ouro do rap brasileiro nas décadas seguintes. Um disco lançado há mais de trinta e cinco anos que ainda é referência obrigatória para quem quer entender de onde vem a cena.

O preconceito veio junto. Sempre vem. A mídia mainstream ignorou, quando não hostilizou. Rádio não tocava. Televisão raramente abria espaço. E o rap cresceu do mesmo jeito, sustentado pela própria periferia que o criou. Esse crescimento sem permissão é parte fundamental do que o torna o que é.

A lei que instituiu o 6 de agosto como Dia do Rap Nacional é um ato político. Reconhecer oficialmente um gênero que nasceu nas margens, que foi perseguido, que foi tratado como caso de polícia em festas e bailes pelo Brasil afora, significa admitir um erro de longa data. Não se trata de prestígio vazio. É o Estado reconhecendo, formalmente, que ignorou durante tanto tempo uma manifestação cultural que transformou gerações. Que deu linguagem a jovens que não encontravam outra forma de nomear o que viviam. Que, em muitos casos, serviu como alternativa real dentro de territórios onde o Estado só aparecia com sirene.

O rap brasileiro carrega nas letras uma função que vai muito além da música. As rimas conscientes que definiram a Era de Ouro nunca foram só poesia: eram denúncia, eram documento, eram arquivo de uma realidade que o jornalismo convencional recusava cobrir. Essa dimensão política não sumiu com o tempo. Ela se adaptou, ganhou novos formatos, novos sotaques regionais, novas gerações de MCs que continuam colocando no microfone o que ninguém quer ouvir.

Uma das características mais impressionantes do Hip Hop brasileiro é a capacidade de absorver influências sem perder a identidade. O rap nacional passou pelo boom do gangsta, pelo rap consciente, pelo trap, pelo drill, pelo afrobeat misturado ao 150 BPM. Em cada transição, manteve uma cara própria. Isso não é acidente: é resultado de décadas de artistas que entenderam que a cultura local precisava ser o centro, não a imitação do que vinha de fora.

O Dia do Rap Nacional existe também para lembrar disso. Para lembrar que a trajetória foi construída por pessoas que não tinham nada garantido, que gravaram em quartos improvisados, que prensaram CDs no próprio bolso e distribuíram na mão, que construíram um mercado antes de o mercado existir. Toda nova geração de MCs que chega já pisa em chão que foi arado com muito suor. A data é um convite a não esquecer quem fez esse chão.

O rap chegou até aqui porque era impossível calá-lo. Quarenta e poucos anos depois do primeiro cypher nas ruas de São Paulo, o que fica no ar é a pergunta sobre até onde vai chegar e o que terá a dizer quando chegar lá.

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